sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Melancolia

Sensacional filme de Lars Von Trier, traz diferentes pontos de vista acerca da perspectiva do fim do mundo.

Melancholia, 2011, Direção: Lars Von Trier, Com: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgard, John Hurt, Charlotte Rampling, Brady Corbet, Stellan Skarsgard.


O planeta Melancolia após anos escondido, está prestes a colidir com a Terra, o que pode ocasionar ou não sua destruição total. Nesse contexto, temos a história das irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). Justine se casa e vai para sua recepção de matrimônio, onde acontecem vários fatos bizarros e começa a se sentir mais sensível perante os fatos, inclusive percebe que não possui grande conexão emocional com o marido. Claire abriga Justine após essa cair em depressão, além de se assustar com a possibilidade do fim do mundo, após a colisão do planeta Melancolia com a Terra. O filme é dividido em dois episódios, cada um com o nome de uma das irmãs.

Lars Von Trier não é unanimidade perante o público, nem perante a crítica. Seus filmes são pessimistas, densos, vide por exemplo o ótimo "Dogville". Esse filme em especial que retrata história de uma possível catástrofe, causou logo temor, visto que o tema já era denso o bastante, ainda mais com a mão por vezes pesada de Lars, o que se poderia esperar?
O resultado é brilhante. "Melancolia" é um belo filme, dirigido com maestria por Von Trier. Desde a parte técnica apurada, com uma belíssima fotografia e uma acertada trilha sonora, até as performances sensacionais do elenco, juntamente com a sensibilidade (quem diria) na condução da história, o filme é um grande acerto.

O prólogo é belíssimo, com imagens lentas e a música "Tristan & Isold" de Richard Wagner tocando ao fundo, somos apresentados à um deslumbrante espetáculo visual, quase uma poesia composta de imagens.
Kirsten Dunst encarna Justine com intensidade, entregando uma atuação vibrante que lhe rendeu um prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes. Mas há de se elogiar também Charlotte Gainsbourg, que interpreta a irmã mais emocional (Dunst faz a irmã mais racional, embora abalada emocionalmente). Charlotte também tem uma performance sensacional, digna de todos os elogios. O elenco coadjuvante também é digno de créditos, especialmente Kiefer Sutherland, que confere humanidade ao seu personagem e Alexander Skarsgard que segura bem as pontas e chama a atenção também.
Lars Von Trier mostra evolução como diretor, pelo menos no sentido da sensibilidade, afinal mesmo com um tema denso desse nível, Lars conseguiu fazer uma obra reflexiva, ainda densa como seus outros filmes, mas poética por vezes. Mesmo com o pessimismo da história por si, a obra consegue inspirar. Um trabalho louvável do diretor. O que ainda existe e que incomodava os críticos, são os cortes rápidos e os enquadramentos não convencionais, isso ainda permanece e há os que se incomodam com isso, mas não tira os méritos da película, que sem dúvida é um clássico dessa década já. Um filme sublime, com um final desconcertante (ainda que não muito original), que dará ao espectador apreciador da sétima arte, uma experiência cinematográfica inesquecível.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Gabriela, Cravo e Canela

 Sônia Braga e Marcelo Mastroiani exalam sensualidade na adaptação cinematográfica da obra de Jorge Amado.

Gabriela, Cravo e Canela, 1983, Direção: Bruno Barreto, Com: Marcello Mastroianni, Sônia Braga, Antônio Cantafora, Paulo Goulart, Ricardo Petraglia, Flávio Galvão, Tânia Boscoli, Chico Diaz, Nicole Puzzi, Nuno Leal Maia, Nelson Xavier, Cláudia Jimenez, Miriam Pires.

Bahia, 1925. Gabriela (Sônia Braga) é uma jovem retirante que chega em Ilhéus, depois de fugir de uma das maiores secas que já atingiu o Nordeste. É contratada por Nacib (Marcello Mastroianni) e vai trabalhar para ele. Os dois acabam se envolvendo amorosamente e chegam até a se casar. Porém o casamento é abalado pelo comportamento espevitado de Gabriela, que mesmo casada, não deixa de se comportar como uma garota brejeira. Também há os conflitos por conta do coronelismo, principalmente após o assassinato de uma mulher adúltera, o que causa diferentes pontos de vista entre a população.

Baseado no romance de Jorge Amado, "Gabriela" chegou aos cinemas em 1983, 8 anos após a exibição da novela também inspirada na obra e exibida pela Rede Globo, também com Sônia Braga no papel principal. O fato é que Sônia parece ter nascido para interpretar a personagem, tamanha a sua volúpia e jeito brejeiro perfeito, para encarnar a morena cravo e canela do título. Sua presença é arrebatadora. O italiano Marcello Mastroianni, ícone do cinema mundial, forma com Sônia um casal que transpira sensualidade e química em cena. Marcello tem uma atuação inesquecível como o turco Nacib, conferindo virilidade e sensibilidade ao personagem, em igual escala.
O filme se apoia no talento e no entrosamento em cena do casal central. Dessa forma, as tramas paralelas que falam sobre o poder dos coronéis, assassinatos de esposas infiéis, a paixão da menina Malvina (Nicole Puzzi) pelo engenheiro Rômulo (Nuno Leal Maia), acabam ficando um tanto superficiais e não rendem como deveriam. Os atores coadjuvantes acabam apagados pela história principal. A força do filme é realmente a relação de Gabriela com Nacib.

Há de se destacar também a belíssima trilha sonora composta por Tom Jobim e cantada por ele em parceria antológica com Gal Costa. Um deleite para os ouvidos, especialmente "Tema de Amor de Gabriela", uma bela canção que torna o romance central ainda mais atrante.
Sônia Braga atua tão naturalmente como a protagonista, que causa um certo temor a escolha de Juliana Paes para um remake a ser exibido esse ano pela Globo.

Meia Noite em Paris

Woody Allen em grande forma, numa deliciosa comédia romântica ambientada na cidade da luz.

Midnight in Paris, 2011, Direção: Woody Allen, Com: Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cottilard, Mimi Kennedy, Kurt Fuller, Kathy Bates, Michael Sheen, Alisson Pill, Corey Stoll, Yves Heck, Carla Bruni, Adrien Brody.

Gil (Owen Wilson) é um roteirista norte americano que vai passar férias em Paris com sua noiva Inez (Rachel McAdams) e os pais dela (Mimi Kennedy e Kurt Fuller). Apaixonado pela cidade, Gil gosta de fazer caminhadas na calada da noite e em um desses passeios, um automóvel antigo lhe oferece uma carona, ele aceita e acaba parando numa festa com pessoas renomadas como Ernest Hemingway e Cole Porter. Deslumbrado com o acontecimento, passa a  fazer o ritual nas noites seguintes.
Woody Allen é um diretor indiscutivelmente talentoso e dos melhores. Mesmo quando não está em seus melhores momentos, seus filmes tem relevância. Felizmente, "Midnight in paris" é sensacional. Um primor, com belas imagens da França, um humor refinado e um tanto cerebral, diálogos divertidos e personagens cativantes. Mesmo irregular, a incursão de Allen pela Europa tem sido benéfica para novas idéias e no quesito inspiração. "Meia Noite em Paris" vem juntamente com "Match Point" (filmado na Inglaterra e que veio a ser seu primeiro filme na fase européia), a somar entre os grandes filmes do diretor.

Uma das mais fortes características de Allen, é seu humor intelectual, ele faz rir mais por situações, do que por gags visuais. Outro ponto forte do autor é casar suas obras com o realismo fantástico, que nesse filme funciona com excelência e de forma poética. Em "Meia Noite em Paris" temos Woody Allen em plena forma, transpirando genialidade. Trilha sonora bem imposta e um clima nostálgico delicioso, ajudam ainda mais essa ótima produção. O sabor de nostalgia inserido no longa é encantador, transporta em definitivo para a época retratada nos passeios noturnos do personagem de Owen.
O elenco também merece destaque, especialmente Owen Wilson, extremamente carismático e que representa com maestria um alter ego do autor. Wilson tem melhorado cada vez mais como ator e aqui encontra um filme à altura para mostrar seu talento. Destaque também para Marion Cottilard, que ilumina a cena interpretando uma mulher da Paris da década de 1920, em uma bela performance.

Direito de Amar

Fotografia e atuações são os principais destaques da estréia do estilista Tom Ford na direção de longa metragens.

A Single Man, 2009, Direção: Tom Ford, Com: Colin Firth, Julianne Moore, Nicholas Hoult, Matthew Goode, Ginnifer Goodwin.

Mais um caso de título infeliz nomeado pelas distribuidoras. A Single Man relata a história de George Falconer (Colin Firth), um homem que após a morte do companheiro, passa a viver numa intensa angústia e um determinado dia resolve definir seu futuro, mesmo que seja da forma mais trágica, já que por vezes não vislumbra perspectiva para si.

Estréia do estilista Tom Ford na direção. Para quem não entende de moda, Tom Ford se tornou famoso como estilista, trabalhando na Gucci. Em sua estréia, Tom mostra excelente técnica visual, o filme tem uma fotografia estupenda, de fato belíssima. Parece uma pintura bem moldada, destaque para a sequência em preto e branco onde George relembra momentos com o parceiro Jim (Matthew Goode).

O diretor também se mostra competente na direção. Colin Firth, um ator que em trabalhos anteriores como em "Moça com brinco de pérola" (2003), entregava atuações frias e inexpressivas, aqui provou ser um ator muito competente, entregando uma atuação sensacional e coroando o início de uma boa fase, que viria a ser reconhecida com uma indicação ao Oscar de melhor ator por esse filme e uma vitória na mesma categoria do prêmio no ano seguinte, por "O Discurso do Rei" (2010). Ele é muito bem coadjuvado por Nicholas Hoult, revelação em "Um Grande Garoto" (2002) e que atua com sensibilidade como aluno de George. Matthew Goode e Julianne Moore também tem boas participações.
Entretanto, apesar das qualidades estéticas e dos intérpretes, "Direito de Amar" não envolve como deveria. Sua atmosfera triste não é compensada pelo ritmo, nem pelo emocional das cenas, pois mesmo com ótimas atuações, o filme é por vezes gélido, a trilha sonora suprime as interpretações e as imagens. Há um certo exagero em determinadas cenas, com a presença de uma trilha sonora por vezes histriônica. As maiores qualidades do filme são mesmo a estética visual e as performances do elenco.




terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Namorados Para Sempre

Michelle Williams e Ryan Gosling brilham em drama sobre crise conjugal.

Blue Valentine, 2010, Direção: Derek Cianfrance, Com: Ryan Gosling, Michelle Williams, Faith Wladyka, John Doman, Mike Vogel.

 Infeliz título brasileiro, juntamente com uma falsa propaganda tupiniquim no cartaz dizendo se tratar de uma bela história de amor, mostram que as distribuidoras nem sempre agem com bom propósito perante algumas produções. Aqui não temos um romance açucarado, muito longe disso. Blue Valentine conta a história de Cindy (Michelle Williams) e Dean (Rayn Gosling), um jovem casal que passa por um desgaste no relacionamento e vão passar uma noite em um motel, para tentar tirar o relacionamento do marasmo, enquanto isso flashbacks mostram o início do relacionamento, os tempos bons de outrora até chegar na crise conjugal.

A maior qualidade do filme reside no talento inquestionável de seus intérpretes. Ryan Gosling é uma forte e carismática presença, já demonstrou seu talento em outras produções como "Tolerância Zero", aqui tem mais uma chance de mostrar seu imenso carisma. Há também a luminosa interpretação de Michelle Williams (indicada ao Oscar de melhor atriz pelo filme). Sua expressão desnorteada e extrema sensibilidade nas muitas nuances de sua complexa personagem, valorizam o filme e justificam sua ascensão como atriz. Michelle construiu uma personagem rica, completa, trabalho de uma grande atriz mesmo.

Não que o filme não tenha seus méritos no roteiro, não se trata de um filme ruim em hipótese nenhuma. Há uma cena delicadíssima e tocante, onde os personagens estão consumando o ato em uma cama giratória em um quarto de motel futurista e acabam por levantar-se e ter uma forte discussão e tensão sexual no chão, onde a personagem de Michelle se demonstra volúvel e um tanto desajustada, enquanto seu parceiro em  cena mostra extrema sensibilidade e respeito inestimável pela esposa, tudo ao som da belíssima canção Smoke Gets in Your Eyes.
O diretor Derek Cianfrance demonstra competência na direção dos atores. Porém o ritmo algumas vezes beira o marasmo nas cenas de flashback, tornando o longa um tanto cansativo nesses momentos, como nas cenas de asilo (local onde os protagonistas se conhecem, ela cuidando da avó, ele com seu emprego de arrumador), que possuem créditos por fazer uma comparação entre a juventude e a perspectiva da morte, mas não são bem sustentadas em seu clima, não criando a empatia necessária com o espectador. Sua vitalidade reside justamente nas vibrantes cenas do momento presente dos protagonistas, especialmente as cenas no motel e nas que antecedem o desfecho realista e esperado. Quedas de ritmo à parte, o longa tem cenas muito bem construídas e que ajudam a manter o interesse, além de ser relevante por ser um filme cru, sem idealizações, mostram um relacionamento tal como ele é, sem romantismo desnecessário. É válido ressaltar que trata-se de uma produção modesta, sendo que Ryan e Michelle também participaram como produtores.
Longe de ser uma produção descartável, "Namorados Para Sempre" é um interessante filme, sustentado por uma dupla de atores talentosos e que tem seus melhores momentos nas partes onde a crise conjugal é mostrada, tal como na vida real, tratando-se de relacionamentos nem tudo são flores e uma história de amor só é bonita, quando as duas pessoas envolvidas estão na mesma sintonia.  

Uma Rua Chamada Pecado

Clássico de Elia Kazan, uma intensa análise psicólogica de uma complexa e intrigante personagem.
A Streetcar Named Desire (1951), direção de Elia Kazan, Com: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden.

Assistir ao filme "Uma Rua Chamada Pecado" (A Streetcar  Named  Desire 1951), de Elia Kazan é desfrutar de uma arrebatadora e inesquecível experiência cinematográfica. O forte roteiro de Teneese Williams causa grande impacto no telespectador. A trama acompanha Blanche Dubois, uma misteriosa mulher que ao sair do emprego de professora, que ela diz ter sido de vontade própria devido  uma crise de nervos e sem ter para onde ir, já que perdeu a mansão da família após dificuldades financeiras, se hospeda na casa de sua irmã, Stella, em New Orleans. Porém o lugar lhe causa estranheza e asco em muitos aspectos, por se tratar de um cortiço estilo polonês. Pior ainda para ela, é lidar com o companheiro de sua irmã, Stanley Kowalski, um homem bruto que parece desafiá-la e com o qual tem uma relação de repulsa e tensão sexual ao mesmo tempo. Esse ambiente hostil a faz piorar de seu colapso nervoso e aos poucos ela vai enlouquecendo gradativamente.
 O autor Tenesse Williams teve uma irmã que sofria de colapsos nervosos, decorrentes de esquizofrênia. Foi internada e segundo consta, foi realizada uma lobotomia nela. O processo de lobotomia a deixou inválida pelo resto da vida. Muitos dizem que o autor criou a  personagem Blanche, inspirada em sua irmã, a quem era muito ligado.
Antes de virar filme, "Uma Rua Chamada Pecado" era peça de grande sucesso na Broadway. Sua transição para o cinema parecia natural e da fato ocorreu. A maioria do elenco original principal foi mantido, Marlon Brando, Karl Malden e Kim Hunter. Entretanto, Jessica Tandy interpretava a trágica Blanche no teatro, mas foi vetada na versão cinematográfica, sendo substituída pela estrela Vivien Leigh, até então eternizada como  Scarlett O'Hara, protagonista de "E o Vento Levou" (1939).



O resultado não poderia ser melhor. Vivien Leigh deixou toda a aura de Scarlett para trás e mergulhou fundo nos delírios de sua amável, porém patética personagem, numa interpretação perfeita que lhe rendeu seu segundo Oscar de melhor atriz, o primeiro foi por "E o Vento Levou". Seu duelo de interpretação com Marlon Brando é espetacular, a tensão que há entre os dois é um dos elementos mais poderosos da produção, Blanche tem medo de Stanley, mas gosta de provocá-lo. Ele por sua vez acaba descobrindo o passado nada simpático da atormentada protagonista e passa a ameaça-la. Brando em seu segundo filme, já mostra uma performance excelente e absurdamente viril. Kim Hunter no papel de Stella, irmã de Blanche, traz sensibilidade ao papel, sua personagem é o que há de mais humano na produção. Karl Malden personifica com suavidade e competência Harold Mitchell, amigo de Stanley que se interessa por Blanche.
Um quarteto espetacular, num filme tenso e estupendo, com fotografia em preto e branco e  por vezes escura. É curioso como o preto e branco dá um ar misteriosa e por vezes trágico às películas. Elia Kazan realiza um filme adulto e cheio de detalhes fascinantes. Tanto o diretor quanto o quarteto principal têm um trabalho excelente, mas é impossível ficar indiferente com a trágica Blanche Dubois. Sua personagem é fascinante, frágil e maliciosa, melancólica e expansiva, uma figura humana cheia de nuances, que em seus delírios à procura de carinho, de proteção, acabou tomando caminhos tortuosos, que numa sociedade como a da época se tornou um caminho sem volta. Sua personagem por si daria uma bela resenha. Sua frase final, "Eu nunca duvidei da bondade de estranhos", é antológica.  Inesquecível atuação da igualmente trágica diva inglesa, Vivien Leigh.

A Lula e a Baleia

Ótima produção independente, valorizada por um elenco afiadíssimo.
The Squid and the Whale (2005), direção de Noah Baumbach, Com: Jesse Eisenberg, Owen Kline, Laura Linney, Jeff Daniels, Anna Paquin, William Baldwin.


Essa produção independente de 2005, foi realizada com "apenas" 1,5 milhão de dólares. Eleita por várias associações cinematográficas como um dos melhores filmes do ano que foi lançado, além de vencer como melhor filme no Festival de Sundance. 

Trata-se de um ótimo filme. A história de um casal (Jeff Daniels e Laura Linney) que se separa e causa comoção nos filhos (Jesse Eisenberg e Owen Kline), pode parecer banal, mas o filme é cheio de acertos. O casal se separa, mas com muitas mágoas um do outro. Embora tentem parecer civilizados, ambos destilam veneno contra o parceiro para os filhos, sempre que surge uma oportunidade. Muito ressentimento, principalmente para o personagem de Daniels que sofre uma certa dor de cotovelo ao ver a mulher fazendo sucesso como escritora, ele também sendo escritor e passando por um hiato na carreira. Os filhos reagem à separação de maneiras distintas, mas ambos tem dificuldades para se adaptar com a situação. O filho mais velho (interpretado por Eisenberg) procura crescer e respeitar a decisão, mas não sem fazer uma série de julgamentos a respeito da mãe, principalmente no que diz respeito à vida amorosa da matriarca. O filho mais novo, personagem de Owen, não consegue ficar indiferente ao divórcio e passa a se sentir confuso e rejeitado. 
O elenco é um caso à parte. Laura Linney, excelente atriz, mais uma vez mostra uma forte atuação, assim como Jeff Daniels que está soberbo na produção e tem seu melhor papel depois muitos anos. Os garotos também têm ótimas performances. Owen Kline se mostra uma revelação, enquanto Jesse Eisenberg, ainda pouco conhecido na época, mostra porque se tornou um dos melhores atores da nova geração (alcançou o reconhecimento do público e da crítica ao protagonizar "A Rede Social"), com uma interpretação contida, mas cheia de fúria, exalando vulnerabilidade e receio de mostrar as fraquezas do personagem, o típico adolescente querendo ser adulto. Um belo trabalho de um ator que comprovou ter talento com o passar dos anos.



"A Lula e a Baleia" é um perfeito exemplo de como não é necessário um grande orçamento, para realizar um filme comovente e inteligente, além de relevante. Prova de que a arte do verdadeiro cinema ainda existe. Afinal o que seria do cinema se só houvesse espaço para blockbusters?

Boogie Nights - Prazer Sem Limites

Sensacional drama que aborda o apogeu e a decadência do cinema pornô.
Boogie Nights (1997), direção de Paul Thomas Anderson, Com: Mark Wallbergh, Burt Reynolds, Julianne Moore, Heather Graham, John C. Reilly, William H. Macy, Philip Seymour Hoffman, Luis Guzman, Thomas Jane, Philip Baker Hall.

 Esse subestimado filme de 1997 é mais um  grande filme da bela carreira do diretor Paul Thomas Anderson, aqui em seu segundo trabalho. A história de um adolescente (Mark Wallbergh, em uma boa atuação) que entra para o mundo do cinema pornô, é esplêndida. Um trabalho de direção impecável, um ritmo frenético e cenas emocionais o bastante para não deixar o telespectador recuperar o folêgo, são os ingredientes dessa produção antológica.

Mas é válido frisar que o filme é pouco comentado, afinal quando falam de Paul Thomas, costumam lembrar de "Magnólia"(1999) ou "Sangue Negro"(2007), dois maravilhosos filmes, mas "Boogie Nights" não faz nada feio perto deles, tem a mesma qualidade artística e a inconfundível mão do diretor. Ignorado na indicação para melhor filme no Oscar de 1997, onde o grande vencedor da noite foi "Titanic", o que prova que a Academia nem sempre é coerente.

Paul Thomas Anderson é deveras habilidoso em comandar um filme com muitos atores, nesse ponto ele recebe muitas comparações com o saudoso Robert Altman. Um diretor corajoso e que não se vende ao maniqueísmo dos grandes estúdios. Um grande elenco, diga-se de passagem, formado por atores em perfeita sintonia. Julianne Moore, uma excelente atriz, aqui mais uma vez mostra todo seu talento como uma mulher madura, esposa de um homem influente no cinema pornô e que trabalha como atriz pornô também, ocasionalmente, numa interpretação indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. Burt Reynolds, também indicado ao Oscar de coadjuvante, tem o que muitos consideraram o melhor trabalho de sua carreira, no papel do marido da personagem de Moore e agente do personagem de Wallbergh.
John C. Reilly, William H. Macy e Philip Seymour Hoffman, três maravilhosos atores, colaboradores de Paul Thomas na maioria de seus filmes, ajudam a manter a qualidade das atuações, em pequenos, mas nunca irrelevantes, papéis.
A cena final é ousada e um marco na história do cinema. "Boogie Nights" é um filmaço que merece ser descobrido, uma obra que está meio esquecida, mas é poderosa o suficiente para ser um clássico do cinema americano e da carreira do sempre competente diretor.

Cold Mountain

Romance ambientado na Guerra Civil Americana, com imagens grandiosas e cenas tocantes.
Cold Mountain (2003), direção de Anthony Minghella, Com: Jude Law, Nicole Kidman, Renée Zellweger, Brendan Gleeson, Jack White, Kathy Baker, Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman, Natalie Portman, Ray Winstone, Eillen Atkins, Giovani Ribisi, Lucas Black, Melora Walters, Jena Malone, Cillian Murphy.

 Penúltimo trabalho de direção de Anthony Minghella (vencedor do Oscar por "O Paciente Inglês), esse filme ambientado na Guerra da Secessão foi solenemente ignorado nas principais categorias do Oscar de 2004. Durante a Guerra Civil Americana, a culta e refinada Ada (Nicole Kidman) chega com seu pai (Donald Sutherland) na pequena cidade de Cold Mountain. Inman (Jude Law) é um tímido trabalhador madeireiro, que apesar de sua introspecção, consegue encantar Ada, assim os dois iniciam um breve romance, mas arrebatador o suficiente para quando ele partir para a Guerra, ela prometer esperá-lo. Sozinha e desamparada após a morte do pai, Ada recebe a ajuda de Ruby (Renée Zellweger), uma caipira falastrona e durona que a ajuda nos afazeres da fazenda. Inman por sua vez, fica desacreditado da Guerra e resolve voltar para casa, mas nada será tão fácil, visto que os desertores (homens que abandonam a causa) passam a ser perseguidos, já que o ato é considerado desonroso. Assim o personagem terá um árduo trabalho pela frente.

"Cold Mountain" possui uma belíssima fotografia, o trabalho de direção de arte é esplendoroso e a trilha sonora é encantadora. O filme é bem interessante, embora um tanto lento e gélido, mas essas características casam muito bem com a história em si. Mesmo com sua longa duração, o filme jamais se perde em sua bonita história. A sequência inicial é um deleite para os olhos, um primor.

A história emociona e o casal protagonista sustenta o filme com segurança, principalmente Jude Law, em um de seus melhores trabalhos. Nicole Kidman ilumina a tela com sua presença e Renée Zellweger, apesar de um tanto careteira, tem uma divertida e humana participação, sua personagem é o alívio cômico da trama. Por sua performance, Renée ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante.
Os muitos coadjuvantes do filme, ajudam a trama a não cair no marasmo. Especialmente as participações de Philip Seymour Hoffman e Natalie Portman, ele interpretando um religioso ninfomaníaco e ela, uma jovem viúva desamparada. Aliás, as cenas envolvendo a personagem de Natalie são algumas das mais emocionantes do longa. Cillian Murphy num pequeno papel, antes de ficar famoso, surge enigmático e humano.
A direção de Anthony Minghella é competente como sempre, ainda por vezes imprimindo o citado clima gélido na produção, talvez reverenciando  a montanha gelada do título original, mas não comprometendo a obra. O diretor morreu em 2008. "Cold Mountain" é um filme que tem seu valor, uma obra bonita e visualmente irrepreensível.



Cinema Paradiso

Emocionante filme italiano, uma bela homenagem à sétima arte.


Nuovo Cinema Paradiso (1989), direção de Giuseppe Tornatore, Com: Phillipe Noiret, Marco Leonardi, Salvatore Cascio, Jacques Perrin, Brigitte Fossey, Antonela Atilli, Pupella Magio, Agnese Nano. 

 Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1989, esse drama italiano é uma obra belíssima. A história gira em torno do menino Salvatore, um coroinha de igreja e cinéfilo mirim, que frequenta assiduamente o único cinema de uma pequena cidade italiana, por vezes espreitando até filmes proibidos para sua idade. Nesse cinema, até as cenas de beijo são censuradas. Ele inicialmente causa certa má vontade em Alfredo, o projecionista do cinema, porém com o tempo acaba nascendo uma bela amizade entre ambos. Alfredo ensina o ofício para Salvatore, mesmo à contragosto , porém após um grave acidente, Alfredo fica impossibilitado de prosseguir com o trabalho e o jovem Salvatore assume a função. Mas a amizade de ambos permanece e Alfredo passa a exercer forte influência na vida de Salvatore.
"Cinema Paradiso" tem inúmeras qualidades. A começar pela trilha sonora, um verdadeiro primor. Desde as cenas mais engraçadas, passando pelas mais ternas e chegando nas mais dramáticas, todas as músicas casam muito bem com cada cena do longa. A direção de Giuseppe Tornatore é impecável, tal como a belíssima fotografia. O elenco é muito talentoso. Phillipe Noiret, intérprete de Alfredo, causa empatia desde a primeira cena. Três atores se revezam para viver Salvatores e o fazem com dignidade, mas o destaque vai para o carismático Salvatore Cascio (na época um garoto ainda), que possui o mesmo nome do personagem e foi escolhido entre muitos concorrentes para desempenhar o papel do protagonista na versão criança. Sua autenticidade é cativante.

Acima de tudo, o filme é uma produção à moda antiga, traz um clima deliciosamente nostálgico. Uma produção que fala sobre temas universais, principalmente a amizade. O sentimento que une Salvatore e Alfredo, é de uma beleza única, um misto de respeito, com carinho e admiração. O próprio cinema é um importante personagem dentro da obra, já que não apenas é um local para exibir filmes, mas também um lugar onde é possível sonhar, principalmente numa cidade pacata e sem muita perspectiva, como a que o filme é situado.
 Um filme emocionante, que retrata sentimentos e situações reais. Uma sublime homenagem ao cinema, mesmo que não tenha sido essa a intenção do diretor. Trata-se de uma obra poderosa emocionalmente, um dos filmes mais bonitos que o cinema já produziu e sem dúvida, uma das maiores pérolas do cinema italiano. O final é desconcertante de tão belo, um momento ímpar no desfecho de um longa inesquecível.